
Na minha máquina funciona, isso é o suficiente?
Muita gente confunde código que simplesmente funciona com código que está realmente pronto para rodar em produção. A diferença entre um e outro costuma aparecer no pior momento possível: em pico de acesso, durante uma campanha, com cliente reclamando ou com o sistema fora do ar.
Funcionar significa que o código faz o que foi pedido.
Código pronto para produção significa que ele continua funcionando quando tudo começa a dar errado.
Na prática, código pronto para produção:
- lida com erros de forma previsível;
- escala quando a carga aumenta;
- se comporta bem sob concorrência;
- é observável;
- pode ser mantido sem medo;
- não depende de sorte.
1) Tratamento de erros
Produção é um ambiente imprevisível. APIs externas caem. Banco fica lento. Cache expira. Timeouts acontecem.
Se o seu código assume que tudo sempre vai responder corretamente, ele vai quebrar — e rápido.
Código de produção:
- trata exceções;
- captura falhas externas;
- retorna erros claros;
- evita estados quebrados.
Ignorar erros não faz eles desaparecerem. Só faz você descobri-los tarde demais.
2) Concorrência
Concorrência é real. E não é opcional.
Vários usuários, múltiplos processos, jobs rodando ao mesmo tempo, filas sendo consumidas em paralelo. Se o sistema não foi pensado para isso, os problemas aparecem como:
- condições de corrida;
- duplicidade de processamento;
- registros inconsistentes;
- dados sobrescritos.
Código que funciona com um usuário não necessariamente funciona com cem.
3) Idempotência
Esse ponto é ignorado por muita gente.
Em produção, requisições podem ser reenviadas, jobs podem ser reprocessados, webhooks podem disparar mais de uma vez. Se sua lógica não for idempotente, você terá:
- registros duplicados;
- ações executadas mais de uma vez;
- efeitos colaterais difíceis de desfazer.
Código de produção precisa assumir que a mesma ação pode chegar mais de uma vez.
4) Observabilidade
Sem logs estruturados, métricas e alertas, você não tem controle — só reação.
Quando algo quebra e você depende de usuário reclamando para descobrir, o problema já escalou.
Código pronto para produção:
- registra eventos relevantes;
- gera logs que ajudam a investigar;
- permite entender o que aconteceu sem “chutar”.
Debug em produção não pode ser baseado em achismo.
5) Performance previsível
Performance não é só velocidade. É previsibilidade.
Um endpoint que responde em 50ms hoje e em 5s amanhã é um problema, mesmo que “funcione”.
Código de produção:
- evita queries desnecessárias;
- não faz processamento pesado sem controle;
- considera impacto de volume e concorrência.
O objetivo não é ser rápido no melhor cenário, mas estável no pior.
6) Isolamento de responsabilidades
Misturar regra de negócio, acesso a dados e controle de requisição cria código frágil.
Quando tudo está acoplado:
- mudanças pequenas viram grandes refatorações;
- bugs aparecem em lugares inesperados;
- testes se tornam difíceis ou impossíveis.
Código de produção separa responsabilidades para reduzir impacto de mudanças.
7) Dependências externas sob controle
Qualquer integração externa é um ponto de falha.
APIs de terceiros, serviços de pagamento, mensageria, armazenamento. Tudo isso pode falhar.
Código pronto para produção:
- define timeouts;
- controla retries;
- trata respostas inesperadas;
- evita travar o sistema por dependência externa.
Assumir que serviços externos “sempre funcionam” é ingenuidade.
8) Configuração e ambiente
Código de produção não depende de configuração hardcoded.
Ambientes mudam: local, staging, produção, múltiplos servidores, múltiplos clientes. Se o código não respeita isso, o deploy vira um risco.
Separar configuração de código não é frescura. É requisito básico.
9) Manutenibilidade
Se depois de um mês você não entende o que escreveu, o problema não é memória — é o código.
Produção é manutenção contínua. Código precisa ser:
- legível;
- previsível;
- organizado.
Código bom não é o mais curto nem o mais “esperto”. É o que dá menos medo de mexer.
10) Pensar no impacto futuro
Código que funciona resolve o agora.
Código pronto para produção considera o depois.
Depois de:
- novos usuários;
- novas regras;
- novas integrações;
- novos desenvolvedores no time.
Decisões técnicas ruins não quebram tudo na hora — elas cobram juros com o tempo.
Conclusão
Código pronto para produção não é sobre escrever mais código, usar mais ferramentas ou aplicar padrões complexos.
É sobre responsabilidade técnica.
É pensar no que pode dar errado, assumir que vai dar, e preparar o sistema para continuar funcionando mesmo assim. Essa é a diferença real entre sistemas estáveis e sistemas problemáticos.







