
APIs geralmente funcionam muito bem no começo. Passam nos testes, respondem rápido em ambiente local e entregam o que foi pedido. O problema é que produção cobra coisas que quase nunca são consideradas no início.
A maioria dos problemas que aparecem em APIs não vem da linguagem, mas de decisões técnicas erradas ou simplesmente ignoradas. Abaixo estão os erros mais comuns que vejo em sistemas que começam a dar dor de cabeça depois de ir para produção.
1) Confiar demais no frontend
Esse é um clássico.
Validar apenas no frontend é assumir que:
- todo cliente vai se comportar bem;
- ninguém vai chamar a API direto;
- dados nunca vão chegar quebrados.
Em produção, isso não acontece.
API precisa validar tudo o que recebe: tipo, formato, limites e estados possíveis. Qualquer dado inválido que entra no sistema vira bug silencioso, inconsistência ou erro difícil de rastrear depois.
2) Não padronizar respostas de erro
Uma hora o endpoint retorna erro como string, outra hora como objeto, outra hora com HTTP 200 e mensagem de erro no corpo.
Isso gera:
- confusão para quem consome a API;
- lógica duplicada no client;
- dificuldade de debug.
API de produção precisa ter padrão. Mesmo formato de resposta, mesmos campos, mesmos códigos HTTP. Isso reduz erro e aumenta previsibilidade.
3) Ignorar controle de requisições
Sem rate limiting, uma API fica exposta a:
- abuso involuntário;
- loops mal implementados em integrações;
- sobrecarga em horários de pico.
Muitas quedas de API não são ataques. São apenas clientes chamando demais um endpoint que não foi preparado para isso.
Controle de requisições não é opcional em produção.
4) Misturar regra de negócio com camada HTTP
Quando controller começa a virar:
- regra de negócio;
- validação;
- persistência;
- resposta HTTP;
o código se torna frágil.
Esse tipo de acoplamento dificulta:
- testes;
- reutilização de lógica;
- manutenção futura.
Separar responsabilidades não é academicismo. É o que evita refatorações dolorosas depois.
5) Não pensar em idempotência
Em produção, requisições podem ser reenviadas. Jobs podem rodar mais de uma vez. Webhooks podem disparar duplicado.
Se a API não for idempotente:
- registros duplicam;
- ações são executadas mais de uma vez;
- efeitos colaterais aparecem.
Esse tipo de bug geralmente só aparece depois de um tempo, quando já tem dado real envolvido.
6) Assumir que dependências externas sempre funcionam
APIs de terceiros falham. Sempre.
Se sua API depende de outro serviço e não define:
- timeout;
- tratamento de erro;
- comportamento de fallback;
ela vai travar junto.
Código de produção não assume sucesso. Ele se prepara para falha.
7) Falta de timeout nas requisições
Sem timeout, uma chamada externa lenta pode:
- travar workers;
- consumir conexões;
- gerar fila acumulada;
- derrubar performance geral.
Timeout é uma forma de proteção do sistema. Não definir é deixar o sistema vulnerável.
8) Falta de logs úteis
Log demais é tão ruim quanto log nenhum.
Em produção, log precisa responder perguntas como:
- o que aconteceu?
- quando aconteceu?
- com qual dado?
- em qual ponto do fluxo?
Logs genéricos ou inexistentes transformam qualquer incidente em caça ao erro.
9) Falta de versionamento da API
Alterar contrato de API sem versionamento quebra clientes silenciosamente.
Versão não é detalhe. É o que permite evoluir a API sem destruir integrações existentes.
Ignorar isso costuma gerar retrabalho e retratação depois.
10) Tratar produção como ambiente de teste
Produção não é lugar para:
- “ver se funciona”;
- testar comportamento;
- improvisar correções.
APIs em produção precisam ser previsíveis, estáveis e fáceis de operar. Qualquer mudança deve assumir impacto real.
Conclusão
APIs quebram porque foram pensadas apenas para funcionar, não para operar em produção.
Evitar esses erros não exige ferramentas mirabolantes. Exige postura técnica, atenção ao contexto e responsabilidade com quem vai depender da API depois.







